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Quando eu era menino pequeno lá…

por Onofre Ribeiro

A princípio parei e repensei, mas imagino que não poderia deixar de embasar o presente no passado, da mesma forma que não se pode ignorar o futuro apenas porque, ele ainda não chegou.
Aproveitei também para relembrar tudo que escrevi -aqui ao longo desse ano e quatro meses. Realmente, no dia-dia a gente tende a se repetir em alguns conceitos que marcam a espinha dorsal de postura e das, atitudes de, todos nós. E, de fato, percebi que as amarrações comparativas acabaram se tomando frequentes.

Mas não vou desistir delas. O nosso país não tem memória muito boa. Condena e perdoa com a mesma facilidade. Julga e esquece também rapidamente. Ou seja, não somos definitivos em nada.

A média maciça das colunas que tenho escrito aqui na GAZETA dizem respeito a Mato Grosso. Mas Mato Grosso não nasceu ontem, como nasceu este jornal, há menos de dois anos. O Estado vai a três séculos de existência e acumulou um volume de experiências que se chama de História. Esses traços acumulados não desapareceram com a morte de uma pessoa. Eles passam ora como história, ora como lembrança e até como exemplo. E de traço em traço vai se construindo um perfil que termina sendo um traço coletivo.

Em 1975 quando a portei em Mato Grosso, vindo de Brasília, encontrei uma sociedade receptiva, meiga e amena, mas muito contemplativa. Este era o traço vigente naquele momento, fruto de uma história acumulada que passava pela miscigenação racial, pela adaptação ao clima tropical e por uma psicologia coletiva. Ninguém muda isso apenas por querer mudar. Da mesma forma que o traço foi adquirido, ele precisa ser modificado num espaço de tempo por novos fatores com idêntico poder de influência.

Recordo-me de ter estranhado a fala, a pouca pressa e um certo ar de desdém com a minha pressa cosmopolita. Vejo hoje uma Cuiabá apressada. E vejo-me, inversamente, sem aquela pressa que um dia eu trouxe, como tantos trouxeram. Mudaram-se alguns aspectos e mudamos todos nós. Um novo traço está se formando. O apartamento era assunto condenado em Cuiabá. “Como, cuiabano morar em apartamento?” Se questionava. Apartamento é quente e não tem o pé direito com 4 metros”, indagavam todos. Hoje o apartamento está matando o valor dos casarões compridos de tantas salas, quartos e quintais. Até as mangueiras e os cajueiros estão indo embora.

Tudo isso são fatos. Eles acontecem um após o outro e vão formando quase invisivelmente uma cadeia interligada que se transforma depois num traço do comportamento coletivo.

Mas a economia é assim. A política também. E toda a movimentação humana vem obedecendo a movimentos assim. Como os da rede cuiabana tecida no tear. A cada vai-e-vem, volta diferente. Depois de um tempo quem está deitado na rede assimila uma preferência por um tipo de balanço e o incorpora ao seu comportamento.

Imagino que assim tem sido neste Mato Grosso inteiro depois que os migrantes de tantos lugares chegaram, vindos com tantas culturas e tantas falas diferentes. O ex-deputado corumbaense José Feliciano de Figueiredo, dono de uma língua ferina, dizia que a gente chega em Cuiabá, critica, mas acaba assimilando os defeitos do cuiabano e fica tão defeituoso como ele. Isso ele dizia em 1978. Morreu, cuiabaníssimo, há uns quatro anos.

Os fatos políticos e os fatos econômicos se interligam, ora se influenciam nesse caminhar em que nada acontece isolado e nem deixa de ser elo de uma cadeia de causa e efeito interminável.

Feito o meu exame de consciência, acho que vou continuar chato para aqueles que acham chato lembrar para compreender o que se passa. Vou continuar lembrando. Afinal, sem a história nós sequer existiríamos corno personalidades cívicas e nem teríamos um comportamento coletivo e individual fixado. Assim, que ninguém estranhe se o próximo artigo começar assim: “Quando eu era menino pequeno lá em Barbacena”.

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