A minha escola

por Gabriel Novis Neves

Uniforme cáqui, impecavelmente limpo, uma modesta pasta contendo um caderno de caligrafia, um lápis preto, uma borracha, um apontador e o livro de leituras. A merenda era um pedaço de pão francês com manteiga Aviação envolto em um guardanapo de tecido e uma pequena garrafa (não térmica), de café com leite, fechada com uma rolha. A merenda ia dentro da pasta, colocada de forma a não deixar o leite derramar – sob a orientação da minha mãe.

No primeiro dia de aula minha mãe foi comigo até a escola para me ensinar o melhor trajeto até lá. Deixou no bolso do meu uniforme um bilhete que era para eu entregar nas mãos de uma professora que encontraria na Praça Ipiranga, em frente a minha escola.

Para ajudar na minha identificação, disse que já tinha me recomendado à professora e ela me conhecia. Minha mãe me mostrou aquela que seria a minha primeira professora e comentou: “Veja Gabriel, a sua professora parece que tem uma coroa na cabeça.” Eram duas grossas tranças de cabelo, presas no cocuruto da cabeça.

A seguir minha mãe me deu um abraço e um beijo. Olhei para ela e reparei que os seus olhos estavam úmidos; percebi que ela iria chorar. Dei um até logo e um “a benção mãe” e corri para a minha fila. Não quis olhar para trás porque sabia que ela ficou chorando.

Aquela seria a primeira de uma série de separações. Eu, nem desconfiava que aquele dia fosse o dia do lançamento da semente da oportunidade na minha vida. Mas, minha mãe sabia.

Entrei na escola. O encontro com a minha primeira professora — a professora Oló — é uma das minhas mais caras lembranças da infância.

Logo fui tomando ciência do ritual que deveria ser seguido todos os dias antes do início das aulas: formar filas de 30 alunos, perfilados por altura; ao som da campainha do bedel, ficar em silêncio total; cantar o Hino Nacional Brasileiro, enquanto era hasteada a Bandeira Nacional; fazer uma oração, e só então nós entrávamos na sala de aula, na maior disciplina. A professora nos recebia na porta e a todos cumprimentava pelo nome.

No 1º dia de aula houve a necessidade de indicar aos alunos os seus lugares nas carteiras duplas, divididas em três filas. Após algum tempo que entendi porque fiquei naquele grupo III. Era totalmente analfabeto!

Tudo para mim era novidade naquela manhã! Tão diferente dos quintais e do bar do meu pai, referências de mundo que tinha antes dos sete anos de idade.

Conheci uma porção de coisas novas. Carteiras, quadro negro, giz, apagador, e o que mais me marcou: na escola, banheiro para fazer pipi, era chamado de “breve”.

Lembro-me que adorei o recreio. Saíamos da sala em fila e íamos merendar. Naquele momento retirava da pasta a merenda que minha mãe preparava. Notei que alguns meninos iam ao pátio da escola e compravam bolos. Os mais pobres recebiam a merenda da escola. Geralmente um pão com rapadura.

Outra grata recordação deste período foi a mão paciente e amorosa da minha professora sobre a minha me guiando nos primeiros passos do beabá. Fazia exercícios intensos de caligrafia, pois não possuía nenhuma coordenação motora, mal sabia segurar no lápis. Não conseguia, a não ser com o auxílio da professora, escrever uma letra dificílima que era a letra “g”, de Gabriel. Foram quatro anos de descobertas e inocências.

Esta moça – Escola Modelo que conheci na flor da sua juventude, com apenas 32 anos – reproduziu muitos filhos ilustres. Hoje centenária continua a sua “função reprodutora”, graças à ciência médica implantada em Cuiabá pelos seus filhos.

O tempo passou muito rápido para a minha escola, e pra mim. Devo tudo à educação que recebi em casa e na minha primeira escola. Hoje, ao sabor dessas agradáveis recordações de uma época bem longínqua, percebo que “o importante não é ser, mas ter sido”.

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