A tristeza do domingo

por Gabriel Novis Neves

Hoje é domingo. Como todos os dias, saio para a minha caminhada terapêutica, bem cedinho. O domingo já amanhece triste. Observo as ruas e avenidas vazias, onde poucos andam. Um ou outro carro passando. O centro comercial fechado. Prédios silenciosos guardando o sono dos seus moradores. Mendigos dormindo nas calçadas, na companhia de cachorros famintos. Enfim, é como observar uma cidade morta.

Os domingos também guardam umas características interessantes – e tristes. Tenho a impressão que neste dia, muita gente toma o café da manhã fora de casa. A razão? Talvez pela folga da empregada. Os clientes da padaria aos domingos não são os mesmos da semana. No almoço, os restaurantes, botequins e botecos estão lotados. Poucos almoçam em casa. As casas de parentes também são fontes de agregação para o almoço de domingo. Existem aqueles que escolhem almoçar fora da cidade. Não deve ser nada agradável com a nossa temperatura de quarenta graus, enfatiotar-se, sair de casa e pegar uma fila para almoçar. Há que se ter vocação para enfrentar filas!

Depois do almoço o grande programa é assistir futebol pela televisão. Terminado o jogo, tenho a sensação que o domingo morreu. A musicazinha anunciando o Fantástico é como aviso que o caixão do domingo será fechado. A tristeza toma conta de mim e fico com vontade de dormir, mesmo sabendo que irei acordar para o dia mais antipático da semana.

Porque tenho este sentimento com relação ao domingo? Memórias do período da infância onde o domingo era tão esperado e desejado? Época em que tudo de bom acontecia aos domingos?

Missa na Matriz. Chá com bolo com toda família reunida em casa. Almoço com macarronada e galinha. Doce de goiaba de sobremesa. Refresco de caju e as histórias dos mais velhos. Futebol com os pés descalços até escurecer. Banho no quintal com água do poço e o “ajantarado” preparado por mamãe, para a tropa toda e visita surpresa. Antes de dormir, um joguinho de botão no corredor da minha casa. Depois, um copo de leite, rezar e dormir. Segunda-feira, colégio.

Não sei não, mas acho o domingo melancólico pelas lembranças que me ocorrem e da certeza do que perdi ao me tornar adulto. O domingo é tão inútil que não serve nem para uns drinques, pela ressaca do dia seguinte.

É um dia triste.

postado por Gabriel Novis Neves, em 2010

0 comentário
0

VOCÊ PODE GOSTAR

Deixe um comentário

error: O conteúdo está protegido !