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Ah! Que saudade dos bons tempos…

por Onofre Ribeiro

Ontem realizou-se uma das últimas eleições brasileiras à moda antiga. Com comícios, com o horário eleitoral gratuito criado através da Lei Falcão, com cabos eleitorais, com santinhos e com número excessivo de candidatos, a maioria dos quais meros aventureiros em busca de um dinheiro extra em troca de uma possível meia dúzia de votos que pensam ter.

1 – O eleitor – que hoje é um mero espectador e vota ora com raiva de um grupo político, ora com raiva de outro e que vai se frustrando a cada eleição, Numa ela vê um grupo político posicionado politicamente e uma outra o mesmo grupo contradizendo o que pensava ontem. O eleitor está se tornando crítico e informado. Afinal, ele é a razão das eleições.

2 – Partidos – ali! Benditos partidos políticos. Em 1967 eles eram 13, mas só três contavam, PSD, UDN e PTB. Mas eram terrivelmente fiéis. Filha de udenista não se casava com filho de pessedista, e vice-versa. Em 1967 surgiram dois de proveta, Arena, patrocinada pelo governo militar, e o MDB, contra o governo militar. Em 1974 o MDB começou a dar sustos no regime militar e, apesar de todas as dificuldades que as leis ocasionais criavam para liquidar a oposição da sociedade brasileira encarnada pelo MDB, o movimento crescia. Chegou ao máximo em 1984, com Dante de Oliveira e as Diretas-Já, e com Tancredo Neves, em 1985. Em 1986 virou uma frente popular de conveniência. Nela embarcaram tradicionais arenistas e emedebistas. Deu no que deu e hoje não temos mais partidos políticos.

Sem partidos políticos não há eleição e muito menos democracia eficaz. Na próxima eleição já terá havido tempo para o surgimento dos verdadeiros partidos que administrarão a política nos anos vindouros.

3 – Horário gratuito – em 1977 o “pacote de abril”, editado pelo presidente Ernesto Geisel mudou mais uma vez a eleição que viria, para favorecer o governo e a Arena, que era o seu partido. Entre outras novidades trouxe o horário comercial gratuito, que se limitava a mostrar uma foto 3×4 do candidato e a leitura do seu currículo. Hoje a coisa se sofisticou ficou técnica, tão cara que às vezes o ganho eleitoral não compensa o investimento. Em Mato Grosso mesmo não vale, porque a transmissão atinge só a capital e pouco mais de 20% dos eleitores estaduais. Os candidatos do interior aparecem na TV da capital, roubam votos e distorcem a representatividade parlamentar. O futuro do programa eleitoral gratuito é muito discutível. O Brasil inteiro já o olha com alegria.

4 – Comícios – eram infalível no passado. Quantos se reunissem num comício, tantos eram os votos. Hoje quem vai quer ver artistas e não liga sua presença ao voto. O grande comício do futuro será o comício eletrônico, armado em outro palco que não o do horário eleitoral gratuito.

5 – Cabo eleitoral – indivíduo bem posicionado na sociedade, no governo e nos empregos, conhecido como “dono de 500 votos”, etc. “Dedo duro” na entressafra das eleições, para garantir a “boquinha” na próxima eleição. Hoje é uma figura de museu. Eleitor já não se amarra mais pelo cabresto. O cabo eleitoral vai para o museu como mero distribuidor de panfletos dos candidatos que outrora manipulava com seus votos de cabresto.

6 – Tapinha nas costas – outra figura típica da política que está se aposentando, e não deixa saudades. O ex-deputado estadual e federal, José Amando dava odiados tapinhas que tiravam o fôlego dos eleitores.

7 – Botina – era outro recurso escuso que ainda se encontra aqui e ali. O eleitor ganhava um pé de botina e tinha que votar para a vitória do candidato permitir que recebesse o outro pé. Hoje até a botina se aposentou. Teria que substitui-Ia por tênis. Vai ser difícil convencer…

8 – Roubo de urna – urna que saía da seção marrom e chegava adulterada verde de vergonha para ser apurada era coisa comum. Hoje é menos comum, mas existem casos.

9 – Apuração – ali! aqui residia uma máquina de ganhar eleições. Era o tapetão eleitoral. O voto era cantado verbalmente “A”, anotado “B” no boletim e acaba “C” no laudo final. O computador vai acabar com isso.

Finalmente, esse tipo de eleição não será o mesmo daqui prá frente e vai se modificar pelo níve crítico dos eleitores organizados e esclarecidos. Até que o político seja honesto o bastante para querer eleição honesta.

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