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Entrevista – Ramon Carlini

por Eduardo Mahon

Na entrevista da semana, Eduardo Mahon conversa com o editor Ramon Carlini, um dos sócios da Editora Carlini & Caniato e da Editora Tanta Tinta. Ao longo da carreira, Ramon publicou mais de 150 livros em Mato Grosso, um marco histórico.

Mahon: Você já ficou rico editando livros?

Ramon: Jamais! (risos) Nunca tive essa pretensão. Me sustento com um pequeno salário e com a parceria da minha companheira que me ajuda a dividir as despesas da casa. É ela quem manda em mim! Eu trabalho com livros e trabalho em casa, fazendo comida e lavando a louça. Em Mato Grosso, é impossível prosperar financeiramente com a venda de livros. Certa vez, um autor me acusou de ser um capitalista. Achei graça. Graças ao fato de ser um capitalista, consigo editar uma quantidade surpreendente de autores mato-grossenses, o que me dá muito prazer. Ajudei muita gente a tirar das gavetas, dos sótãos, das cabeças muitos livros que iluminam a vida das pessoas.

Mahon: Como funciona a composição de um livro nacional e regional?

Ramon: Esse é um assunto pertinente, mas bem delicado. Pouquíssimos livros saem com tiragem nacional de 10 mil exemplares. No máximo, são 3 mil exemplares. No caso regional, muito menos que isso, o que aumenta muito o custo. O grande problema na hora de compor o preço do livro é com o leitor, com a capacidade de compra do leitor. Na maioria das vezes, não tem a menor condição. Vendemos para as grandes redes que só encomendam o livro vendido e, ainda assim, há problemas com o nossos pagamento. Se pegarmos um livro com 20,00 de preço de capa, preciso mandar à Livraria Cultura com 50% do preço de capa. Só de Correios, sairá R$ 8,00. E, ainda, emitiremos a nota fiscal com 60 dias para pagar! Em resumo, não teremos nenhum lucro e é bem capaz de realizarmos um prejuízo vendendo esse livro encomendado. Quando um sujeito me chama de capitalista, dou risada.

Mahon: O maior imposto talvez seja a ignorância dos grandes centros consumidores, o que te parece?

Ramon: Qual o autor que é editado por uma grande editora nacional? Além do Joca Terron, nenhum. Há um certo preconceito com o que é produzido aqui, por ignorância e desconhecimento. Então, recomendo aos autores que sejam conhecidos na rua, no bairro, na cidade, no Estado. Imagine se conseguíssemos vender no mercado de Mato Grosso. O Estado é enorme.

Mahon: Mas vamos voltar à composição de preços, depois avançamos para a questão da distribuição. Sou partidário do Roberto Schwartz na questão de preços: o preço do livro é bem relativo. O sujeito quer ir ao cinema no shopping. Gasta gasolina para ir e voltar, paga estacionamento, compra uma ou duas entradas, depois faz um lanche com a namorada. Nesse dia, o camarada vai gastar 100 reais, no mínimo. O livro está, em média, R$ 50,00 e dará prazer por uma ou duas semanas, poderá ser emprestado, trocado, doado e até revendido. Afinal, o livro é caro?

Ramon: Ocorre que a população é pobre. R$ 50,00 faz falta. Além do mais, não há hábito de leitura. Não é todo mundo que gasta R$ 100,00 para o cinema do final de semana. O livro não é para uma elite, não gosto de pensar assim. Dentro desse parâmetro, desse exemplo que você está dando, realmente é um absurdo dizer que o livro é caro. Aí a questão é a falta de educação.

Mahon: Eu conheço gente que vai gastar 2 a 3 mil reais para ver o Fantasma da Ópera ou o show do Chico Buarque que se recusam a comprar um livro de R$ 50,00.

Ramon: Pois é, difícil. Esses dias, vi um pai de um aluno de escola particular que reclamou do preço de um livro nosso. Estava a R$ 27,90. O menino estava com um celular de 4 mil reais e é provável ter um tablet de outros 4 mil reais. Portanto, muita gente vê que a literatura produzida aqui é algo menor, onde o escritor precisa dar o livro para divulgar o trabalho dele.

Mahon: É a famosa “taxa de divulgação do artista”.

Ramon: Isso, exatamente. Ocorre que há escritores que vivem da venda de livros, um a um, no varejo. Pagam as contas, reformam carros e seguem adiante com o dinheiro da venda dos livros. Voltando ao tema: sinto esse preconceito por parte das escolas e do governo. O Governo de Mato Grosso não faz nada por nós, não tem política de compra de livros, não tem preocupação de abastecer as bibliotecas com livros, enfim. Seria muito mais barato comprar direto da editora, mas eles preferem comprar da livraria que praticam 100% a mais do nosso valor. Há tantos nomes excelentes para a leitura da garotada.

Mahon: Como é que o Governo forma uma biblioteca?

Ramon: Não sei. A nossa editora, em 20 anos, nunca vendeu um único livro sequer para a Secretaria Estadual de Educação, nenhum livro para a Secretaria Municipal de Educação. Será que nossos autores são tão ruins assim? Para que existe uma Academia de Letras, tantas publicações, resenhas, mestrados e doutorados sobre os autores que produzem em Mato Grosso? Temos uma inércia brasileira que precisa ser rompida. Precisamos investir em novas editoras e novos autores. Do contrário, um país enorme como o Brasil terá apenas 3 editoras e ponto final. O grande lance hoje é a venda independente, em pequenos eventos, embora seja cansativo para o autor. Essa história do escritor como um intelectual encastelado já passou. Até os grandes magazines vão passar.

Mahon: Na sua escala, como leitor, como anda a qualidade da literatura daqui?

Ramon: Não sou crítico literário. Sou apenas um leitor. Nem um grande leitor eu sou. Tenho um faro para o mercado editorial. Mas quem sou eu para julgar um livro? Não tenho coragem de dizer que o livro é ruim. Há coisas que não gosto: pregação religiosa, preconceituosos, fomento de separatismo, aí não faço. O resto, publico tudo. Não posso tirar o direito do autor de publicar um livro. Os livros que não gosto particularmente, simplesmente não coloco dinheiro no projeto. O que posso te dizer que há, em Mato Grosso, temos literatura excelente, muito boa, regular e ruim. Não preciso apontar para ninguém, mas muita gente sabe que há estoques empacados e outros que vendem como água, são queridos, festejados e respeitados pelo público e até nas universidades. Quem vai fazer a seleção é o mercado. Sou apenas um facilitador. O nosso autor tem toda a liberdade de querer alcançar outras editoras maiores, nacionais.

Mahon: Você concorda com a Cristina Campos quando ela diz que faltam romancistas em Mato Grosso?

Ramon: E quando há, acabam indo embora. Veja o exemplo do livro A Intermitência das Águas. O autor foi embora para Portugal. É muito bom. Bebeu na fonte do Vargas Llosa, do Gabriel Garcia Márquez e do Érico Veríssimo. Não consegui parar de ler. Existe sim qualidade na literatura mato-grossense, mas poucos romancistas. Mas veja a população que temos e o grau de escolaridade. O livro em Mato Grosso é supérfluo. Não falei do caso do pai que reclamou do preço do livro? A criança estava com um I-Phone novo na mão. Isso é uma completa inversão de valores.

Mahon: Por isso mesmo digo que o livro não é caro. O livro custa 4 ou 5 cervejas! Mas quero falar sobre a distribuição. Há distribuição em Mato Grosso?

Ramon: Não existe. Para a nossa editora, não existe. A distribuição custa muito dinheiro. O vendedor não dá conta de vender de escola em escola, porque as vendas são insignificantes para bancar esse funcionário. Também não temos nenhuma rede de livrarias. Quando há uma livraria razoável, eles querem pegar consignado com 50% do preço de capa, não pagam à vista, não dão vitrine, não oferecem catálogo, nem gente especializada para abordar o consumidor. É muito difícil manter uma editora em Mato Grosso. Eu gostaria de ver o Governo dar uma chance ao livro mato-grossense, aos autores e editoras mato-grossenses. É como uma Orquestra. Uma orquestra não se monta sozinha, não há dinheiro para isso. Se não tiver apoio oficial, não funciona. Hoje em dia, a indústria do livro precisa desse apoio.

Mahon: É uma questão de política pública…

Ramon: Se houvesse uma política de apreciação de livros, de seleção, aquisição e distribuição nas bibliotecas, um único título teria uma tiragem de 2.500 exemplares. Como não há essa política em Mato Grosso, vendo para outros Estados. Fiz uma proposta em São Paulo de venda de 100 mil livros a R$ 2,50 cada um! Vejo verbas milionárias para comunicação, quase 100 milhões para propaganda do governo, mas não vejo uma verba de 2 milhões por ano para a aquisição de livros.

Mahon: Vou incorporar a Icleia Lima Gomes – o que adianta comprar o livro, se os professores não tem um plano de ensino onde essa obra esteja inserida? O que adianta um museu sem o público? O que adianta vender o livro, se ele ficará empoeirado na estante. Quero dizer: qual a interação que os governos precisam ter com a editora para maximizar os trabalhos com o livro?

Ramon: Para receber o livro, temos que fazer um trabalho completo. Trabalhamos com a Unemat, por exemplo, que estuda a produção mato-grossense. Muitos mestrados e doutorados, ensino profissionalizante, enfim. Há uma quebra de paradigma em andamento, fomentado sobretudo pela universidade. Esses professores formados pela Unemat estão saindo na frente e massificando a nossa literatura em sala de aula para o ensino fundamental e ensino médio. Nos colégios particulares há encomendas, mas nas escolas públicas não. Por que não podemos fazer um programa público de leitura? É o caso do Alcebíades Calhao com a qual fizemos uma parceria com a nossa editora, assim como também foi o caso do colégio rural de Santo Antônio. Nós distribuímos livros. A molecada fica alucinada, briga pelo livro. É aí que vejo que o nosso nível literário é ótimo. O que nos falta é incentivo na participação de feiras, de bienais, de encontros nacionais. Se as pouquíssimas editoras mato-grossenses tivessem apoio dos municípios e do Estado, haveria fôlego suficiente para o aquecimento do mercado editorial.

Mahon: Acho que está acontecendo um movimento inédito na literatura daqui. Não é nada integrado por uma pauta ideológica ou estética. Mas uma efervescência literária, digamos assim.

Ramon: Está acontecendo. As pessoas estão escrevendo mais e melhor. Temos essa celebração que você falou. Um vai lendo, comentando e festejando o outro. A tiragem por demanda aumentou muito. Estamos partindo para terceiras reimpressões, o que é um marco para qualquer lugar no Brasil. Essa parceria da editora com autores é uma atitude de resistência, de mútua proteção. O que percebo é que existe um interesse recíproco dos autores pelas coisas locais, o número de títulos explodiu nos últimos anos e há muitos outros incubados na editora esperando editais, prêmios, incentivo. Ficamos esperando apenas uma oportunidade.

Mahon: Um livro é mais um livro? Ou você se envolve?

Ramon: Há livros que me pegaram pelo coração, pela alma. Alguns livros eu gosto de preparar, de diagramar, de contribuir em todas as fases do processo de produção. Mas o que me conquista mais são os autores. Costumo ficar apegado com os escritores. Meu ídolo é o José Olympio que editou grandes livros, mas se relacionava pessoalmente com os autores como Guimarães Rosa, por exemplo. A editora não é nossa, é do autor. Dou autonomia completa ao autor. É preciso que eles participem, opinem na produção da própria obra. Não estou pensando no comércio! O meu tesão é editar e ponto. Minha droga é editar. Gosto de ver a reação das pessoas. Fico esperando os livros chegarem. Na editora, disputo com meus funcionários quem dará a boa notícia para o autor: chegou seu livro, venha ver como ficou!

Mahon: Na música Livros, do Caetano, ele aponta variadas funções do livro – “Os livros são objetos transcendentes/ Mas podemos amá-los do amor táctil/ Que votamos aos maços de cigarro/ Domá-los, cultivá-los em aquários,/ Em estantes, gaiolas, em fogueiras/ Ou lançá-los pra fora das janelas/ (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)/ Ou o que é muito pior por odiarmo-los/ Podemos simplesmente escrever um”. O livro vai sobreviver? O livro tem futuro?

Ramon: Acredito que o livro continue com a mesma plataforma. Tenho uma enorme curiosidade em saber o que será daqui há 100 anos, mas creio que o livro ainda sobreviva. Esse crescimento virtual tão esperado não funcionou. As pessoas continuam querendo o livro impresso. De qualquer forma, temos que pensar que o Brasil tem 200 milhões de pessoas, onde a maioria não lê um livro sequer. Há um enorme mercado na fatia mais pobre da população, um mercado que não vai saltar do livro convencional para o tablet. Quero atingir a criança do interior, dos rincões mais distantes. Duvido uma criança não se apaixonar pelo livro, pelas cores, pelas formas, por tudo o que ele representa.

Mahon: Já visualizamos o contexto de produção. Qual a solução para as dificuldades?

Ramon: A grande saída é uma política do livro. Ela foi discutida recentemente na Biblioteca Estevão de Mendonça, onde a Marília Beatriz participou. De lá, saiu um documento oficial encaminhado para o governo e para a Assembleia, com um descritivo sobre a formação de bibliotecas e de seleção e aquisição de livros. Não sei em que fase estamos nesse processo. De minha parte, houve um momento que senti que as coisas iriam deslanchar. Houve o 1º Prêmio MT de Literatura, houve o 2º e, depois, a política foi descontinuada no terceiro e no quarto ano de governo. Houve uma avaliação honesta dos títulos e dos autores, lançamento de novos autores, mas acabou em desilusão. O Governador só sabe reclamar de falta de dinheiro, mas o fomento desse prêmio é de 300 mil reais, o que não custa um rodeio de uma noite. Fiquei muito frustrado com isso. O Taques deveria ter articulado a Fapemat para investir em livros, mas não fez. Chegamos ao ponto de ter um Secretário de Cultura que disse estar o livro ultrapassado por outras plataformas. E como fica a população mais pobre sem condição de comprar um tablet?, um celular? Foi uma política arrogante, elitista.

Mahon: Se houvesse algum tipo de medalha da literatura para alguém, eu concederia para o Clóvis Mattos. Em que ponto o Estado pode se espelhar no trabalho dele para construir uma política pública?

Ramon: O Clóvis chega nos mais distantes rincões. Um Governador que tivesse uma visão mínima, chamaria o Clóvis para coordenar um grande programa literário, daria suporte para o cara trabalhar. Ele seria uma grande personalidade, um embaixador do livro! Por que não temos uma “caravana literária”? É o que seria de mais básico em políticas públicas relacionadas ao livro.

Mahon: Durante todo esse governo, Taques disse que queria ver o Picasso em Cuiabá. Acredito que é o artista mato-grossense que deve sair e contribuir com o interesse nacional em Mato Grosso. O que você pensa sobre a nossa participação em eventos fora daqui?

Ramon: Isso seria fantástico. O autor que escreve sobre Mato Grosso, promove o Estado. Se o Governo apoia a Flor Ribeirinha, por exemplo, por qual razão não incentiva o escritor? Por que não nos dar oportunidade de participar da Bienal do Rio, de São Paulo, de Paraty e de Porto Alegre. Vamos comprar um estande de Mato Grosso, vamos fazer o agenciamento desses autores. Se os nossos intelectuais fossem encaixados nas mesas de debate, seríamos conhecidos em todo o Brasil. Isso é um trabalho em favor de Mato Grosso com um custo irrisório. A possibilidade de turismo, a visibilidade regional, o interesse por temas locais, ajuda muito a inserção do Estado no circuito brasileiro. E quanto uma Orquestra vai se apresentar em São Paulo? Estamos dizendo que existimos! Que estamos aqui! Que aqui há cultura! Só que o incentivo pra Orquestra saiu por 600 mil. Se fosse para a literatura, não sairia nem por 100 mil. A Orquestra apresenta-se em 1 dia, a disseminação da literatura, a vida toda. Aí está a diferença.

Mahon: Para você ver como somos intelectualmente pobres em termos de gestores. Acho muita graça do Governador em me chamar de “intelectual de WhatsApp”.

Ramon: Aqui temos um descaso com a literatura, um desinteresse completo do Governo. Imagina se todos os intelectuais de WhatsApp fossem iguais a você. Nós temos você como o nosso maior aliado. O negócio do livro virou um grande jabá. Pouquíssimas pessoas investem em literatura como você. Desisti desse governo quando o Governador levou 1 ano para pagar a emenda da Festa Literária de Chapada dos Guimarães. Aquilo me adoeceu, sofri muito. Esse Governo destruiu os nossos sonhos. Eu acredito mais, Eduardo: tem muita gente com medo de dizer isso, medo de dizer o que nós dizemos. Olha a Literamérica! Lembra? Quantos imortais passaram pela feira. Aqui tem tanto imortal que nunca publicou um livro de literatura (risos). Eu edito porque gosto, porque quero ver a cara de felicidade do autor e dos leitores. Eu não sou um crítico, não sou um intelectual, mas não tenho medo de trabalhar. Vou continuar trabalhando num catálogo que ultrapassou mais de 150 títulos. Não tenho vontade de ser rico, de ter mansão, de ter carrão. O que quero é continuar editando os autores mato-grossenses.

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