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Monstros

por Eduardo Mahon

Se alguém disser que não sente saudade dos monstros de antigamente, é mentira. Autêntica, deslavada e retumbante mentira. Pois o que marcou a meninice de cada um de nós foi justamente o monstro que elegemos para ter medo. Chegamos a colecioná-los durante o sono. Fada do dente? Uma ou outra vez perdida na vida, quando amolecia um canino trocado pela moeda de chocolate debaixo do travesseiro. Papai Noel? Uma vez por ano, até os sete, no máximo. Não eram eles que habitavam os nossos quartos. Os monstros sim, estavam lá, diuturnamente, pontificando dentro do armário, debaixo da cama, atrás da porta. Eu mesmo tive a minha criação particular de monstros. Alimentava cada um deles, conforme a idade: a cuca, o bicho-papão, o homem-do-saco, bruxas, vampiros, lobisomens e outras metamorfoses malévolas. Tenho uma ponta de saudade do lobo-mau, quando ainda não havia descoberto a mulher de branco. E dela, que assombrava estradas, antes de conhecer palhaço assassino de Poltergeist, quando ainda não havia descoberto, por fim, um Jason de Sexta-Feira 13, um Freddy Krueger de A Hora do Pesadelo, um Michael Myers de Halloween, toda essa gente inventada para nos fazer dormir mal. Mesmo esses da década de 80, irremediavelmente maus, desalmados ou demoníacos, tinham uma razão de ser. Os monstros, em resumo, eram também vítimas de maldições, condenações, possessões, entre tantas formas de abduções pelo lado negro da força, para quem quiser lembrar do famigerado Darth Vader, um monstro que se redimiu, no final. Eram esses os nossos malvados favoritos. Houve época em que o insone era carregado pelo boi da cara preta que pastava nos pesadelos gramados. Algumas crianças sentiram medo da mula-sem-cabeça, do currupira, do anhangá, do besta-fera, mas isso foi há muito tempo. São monstros aposentados. Sim, até os monstros se aposentam! Perdem a capacidade laboral, de causar horror. Ainda moleque, queria mais era ver fantasma. É que a gente vai se acostumando. Aos poucos, nos habituamos a todo o tipo de monstro e convivemos com eles com naturalidade. É aí que mora o perigo. Crescemos com uma mórbida intimidade com monstruosidades de toda a ordem, fazendo da ficção, uma realidade. Depois que sabemos que, da porta aberta do armário, não sairá monstro algum, passamos a rir de todas as crendices e esquecemos de que há assombrações reais, vampiros do meio-dia, lobisomens sem lua cheia. Existem sim. Não duvidem. Os monstros de verdade estão camufladas na banalidade. Por aí andam os verdadeiros monstros, nas sombras da insensibilidade humana. São muito diferentes daqueles bichos feios que nos assustaram na infância. Ao contrário – os piores monstros geralmente são bonitos, são educados, são bem relacionados. Os monstros de verdade roubam dinheiro dos hospitais, roubam merenda escolar, roubam asfalto das ruas, roubam bocados de dignidade do próprio povo. São mais atraentes do que o Conde Drácula: usam camisa com abotoadura, gravatas italianas, sapatos de cromo alemão. São monstros viajados, dominam vários idiomas e geralmente querem entrar ou já estão na política. Monstros que falam bem, que são aplaudidos, que eleitos ou reeleitos, perpetuam a sangria coletiva. Esses são os monstros com os quais convivemos tranquilamente: sanguessugas, anacondas, sodomitas, entre outros tantos apelidos permitidos pela criatividade policial. Os monstros de verdade estão sentados ao nosso lado na mesa do restaurante, no boteco, no cinema. Ninguém se assusta. Como vai? E os filhos? Perguntamos a eles como se fossem pessoas comuns. Os monstros frequentam ballet, concertos, boates com direito a camarote. São esses os vampiros de licitações, os lobisomens da isenção fiscal, os zumbis de toga. Pior: há montros no lar, monstros na escola, monstros no serviço. Quanto mais íntimos, piores ficam. Que saudade dos meus demônios de estimação, aqueles monstros de mentira que desapareciam com os primeiros raios de sol ou até que fossem expulsos: Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador…

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