Morrer em Cuiabá

por Gabriel Novis Neves

Há muito tempo não ouço um ditado popular, atribuído a Estevão de Mendonça: “Quem morre em Cuiabá morre duas vezes. Morre de morte morrida e morte pelo esquecimento”. Vale revitalizar – palavra da moda – esta sábia afirmação.
Todas às vezes que um humorista, cartunista, jornalista, escritor, poeta, não cuiabanos, morre em um grande centro, passamos meses recordando e lamentando a falta que fará o talentoso profissional.

Nada mais justo que chorar a perda irrecuperável de um gênio. Cuiabá possui artistas, cantores, compositores, escritores, poetas, jornalistas, humoristas, cartunistas, desenhistas, professores, pesquisadores dignos dos melhores nacionais. Mas…, trabalham e moram em Cuiabá. Precisam de um avalista de fora para ser reconhecidos aqui.

Lembro-me da história dos Trapalhões na década de setenta. Eram quatro palhaços que todos os domingos às 19 horas, faziam o Brasil sorrir – Didi, Dedé, Zacarias e Mussum. A elite gostava da palhaçada inocente do quarteto, mas era politicamente incorreto elogiá-los. Um dia, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil um artigo elogiando- os e avisou para que não o procurassem durante o Programa dos Trapalhões. Pronto! Foi o que bastou para o quarteto ser o assunto da segunda-feira: eram as piadas do Didi, a escada do Dedé, a risada do Zacarias e a malandragem do Mussum. Até então a dita elite intelectualizada não se atrevia a comentar o programa – mas assistia.

Leio num site – que ninguém lê – em sua página principal, uma frase de fazer inveja ao Otelo Caçador, do Jornal O Globo. O Botafogo conquistou o campeonato carioca e o chargista tupiniquim colocou uma foto de um velho e sofrido brasileiro, segurando a faixa: “Botafogo Campeão Carioca 2010”! A legenda dizia: “Torcida Jovem do Botafogo, comemorando o título.” Nem o flamenguista Otelo faria gozação melhor. O autor da façanha que me impressionou pela inteligência e sutileza do deboche, mora e trabalha em Cuiabá. Vive no anonimato, patrimônio cultural de poucos, combatido por muitos e consciente que representa a vanguarda na nossa cidade, quebrando paradigmas e enriquecendo o nosso falar com o seu criativo vocabulário.
Parabéns Gandhi do Porto! Torço para que você possa, um dia, invalidar a profecia de Estevão de Mendonça.

postado por Gabriel Novis Neves, em 2010

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