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Puta

por Eduardo Mahon

Não sou de reclamar, mas tem dias que fico de saco cheio, sabe? Uma noite dessas, eu estava na Farme de Amoedo, tentando um programa e passou um cara numa Mercedes novinha, abaixou o vidro com insulfilme e gritou – puta! Chato isso. Deve ser veado. Só pode! O que fiz pra provocar o sujeito? Nem me ofendeu, claro. Eu já estou acostumada: puta velha, putaça, putérrima, tanto faz. O que me incomodou foi o tom. O tom é que faz toda a diferença. Dizer “puta” assim, de qualquer jeito, é o que a gente mais diz, né? Puta merda, puta que pariu, puta crise, puta calor, puta jogo, enfim, no geral “puta” é positivo hoje em dia. Puta ressalta, sublinha, engrandece. Puta dramatiza, em resumo. Daí que tenho orgulho de fazer a vida há cinquenta anos. É isso mesmo, cinquenta anos de putaria. Qual o problema? Puta até recolhe imposto, se aposenta, tudo o que uma dona de casa, por exemplo, não faz. Tem sindicato, tem associação, tem até grife exclusiva. A profissão evoluiu muito. Aqui na bolsa, eu carrego um spray de pimenta, um consolo, documentos pessoais e uma máquina de cartão de crédito. Quando comecei, nunca imaginava que chegaria nesse ponto. Agora tudo é no cartão. Mais fácil, muito mais. Boquete? 50,00 no cartão. Passo tão rápido que o cliente nem vê. Papai e mamãe? 150,00. Com beijo, são 200,00. Digita a senha, autoriza e pronto: pimba! Antes que você me pergunte, não faço anal. Não faço, nem com black, nem com ouro, nem mesmo com cartão platinum! Fico puta quando insistem. Mas homem sempre quer, né? Quase nada mudou. Antigamente, no entanto, o pessoal era mais elegante. Aqueles homens de terno branco de linho-120, sapato de cromo alemão, chapéu panamá na cabeça, me xingavam com classe: rameira!, meretriz!, rapariga!, era quase um elogio. A primeira vez que escutei “concubina” fui até procurar no dicionário. Na década de 80, o nível começou a cair. Os caras passaram a me chamar de piranha. Piranha, vejam só! Eu que nunca mordi ninguém. Tomo o maior cuidado. Até hoje não vejo razão pra me comparar com uma espécie de peixe lá da puta que pariu. Bem, deve ser isso. Em todo o caso, o que dizem agora é puta mesmo. Como se puta fosse menos importante. Não é! Temos a profissão mais antiga de todas. Mais antiga que muito advogado filho da puta por aí. Pudera. Desde que o mundo é mundo, o homem vive sozinho, né? Puta não serve só pra trepar, pode tirar o cavalo da chuva. Quem pensa assim, está redondamente enganado. A profissional, a verdadeira profissional, é um bote salva-vidas, uma válvula de escape, uma rota de fuga. Se eu tô falando sério? No duro! Sem querer me gabar, acho mesmo que a puta é a única poesia que ainda sobrevive nessa cidade vazia em que a gente vive. Puta é coisa que não sai de moda, somos extremamente modernas. Amor de consumo, amor instantâneo, amor como moeda, né não? Eu comecei a pensar nisso depois que fiz o curso de sociologia. Não acredita? Mas fiz. Na Uerj, por que o espanto? Fico emputecida com preconceito! Até passei num concurso para perita forense. Mas não deu pra assumir. Faça as contas: 2.800,00 para trabalhar de sol a sol, oito horas por dia, aguentando mau-humor e cantada de juiz babão. Eu aqui, na Farme de Amoedo, tiro uns 250,00 por noite, em média. Isso porque tô velha, meu bem. Se eu fosse novinha, ia pra 600,00 a 1.000,00. Numa noite, tá bem?! O meu lance agora é aposentadoria. Dou entrada no INSS e vou pro sindicato. Quero representar a classe. Cinquenta anos de praia não é mole. Quem sabe, depois, eu entre pra política?! Por que não? Eu daria uma puta vereadora. Quem sabe, até deputada. Deputadíssima! Tá olhando o que? Conheço o meio, já atendi muito! Lá, pelo menos, vão me pedir desculpas se me chamarem do que eu sempre fui: puta. Deve ser por causa do tal decoro que nunca soube direito o que é.

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