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Doutora Maria Barata: a dentista que virou artista

por Neila Barreto

Filha de Silvestre Antunes Barata e Maria Mercedes Curvo Barata. Graduou-se em 12 de dezembro de 1936 em Odontologia pela Universidade de São Paulo – USP, com apenas 21 anos de idade.

Lembra com indignação quando deixou Cuiabá para estudar em São Paulo. Conta que seus pais foram muito pressionados pelos amigos e parentes. Naquele tempo não era visto com bons olhos, uma moça que saia para estudar fora do estado, muito menos sozinha. No entanto, o que as pessoas não entendiam era que o meu pai só permitiu porque fui morar na casa dos meus tios Deolinda e Júlio Barata. Maria veio para Cuiabá com as irmãs Ana (corumbaense) e, aqui nasceram Guiomar, Olga, Angélica, Deolinda e, depois outra Olga.

Depois de formada retornou a Cuiabá. Ela afirma que foi a primeira dentista mulher de Cuiabá diplomada. Seu consultório ficava na Rua 13 de Junho, em Cuiabá e tinha o nome de Gabinete. Foi servidora da Saúde Pública do Estado de Mato Grosso e, lá atendia os presidiários que confeccionaram todos os móveis do seu consultório. Maria vendeu o seu gabinete dentário para o Dr. Pedro Paulo Corrêa da Costa.

Trouxe para Cuiabá, também, os costumes das mulheres paulistas e as incorporou no seio cuiabano novas ideias, mais participação, novas tendências tornando o caminho das mulheres cuiabanas menos árduo, ganhando visibilidade na sociedade cuiabana e uma maior participação na vida pública.

Para Margareth Rago, esse comportamento de “Frágil e soberana, abnegada e vigilante, um novo modelo normativo de mulher, (…) prega novas formas de comportamento e de etiqueta, inicialmente às moças das famílias mais abastadas e paulatinamente às das classes trabalhadoras, exaltando as virtudes burguesas da laboriosidade, da castidade e do esforço individual. (…) forja uma representação simbólica da mulher, a esposa-mãe – dona-de-casa, afetiva, mas assexuada, no momento em que as novas exigências da crescente urbanização e do desenvolvimento comercial e industrial que ocorrem nos principais centros do país solicitam a sua presença no espaço público das ruas, das praças, dos acontecimentos da vida social, nos teatros, cafés, e exigem sua participação ativa no mundo do trabalho.

Casou-se com João Celestino Corrêa da Costa, em 28 de outubro de 1939, com 24 anos de idade nos anos trinta. Foi morar na zona rural de Cuiabá, na chácara Bela Vista, no distrito de Sucuri. “Sem querer e tampouco perceber, mas vi novamente no balcão do armazém, porque o Joãozinho era comerciante”. Organizava as cadernetas dos fregueses e ao final de cada mês fazia, também, a contabilidade. No Sucuri, vivemos uma vida de paz. Do casamento nasceram os filhos Helyete Corrêa da Costa Brandão, Dr. Filinto Corrêa da Costa e Inês Corrêa da Costa. Muitos netos e bisnetos.

No Sucuri Drª Maria aprendeu a gostar da arte de fazer, da arte de cozinhar e iniciou a sua carreira de banqueteira. Lembra que a sua primeira encomenda de Buffet foi feita pela senhora Maria Aparecida Pedrossian, e a sua última encomenda foi na cerimônia de 90 anos de sua mãe, no Rio de Janeiro e o aniversário de 15 anos de sua neta Adriana.

Com o passar o tempo comprou um novo comércio na Praça da Mandioca, um armazém de secos e molhados onde também vendiam sorvetes e picolés feitos por D. Maria. Mais tarde trocou o armazém da Mandioca pelo Armazém Bandeirantes, na Rua Antônio João, nas proximidades da hoje Praça Ipiranga, adquirida do senhor Silvestre. Lá só vendiam secos e molhados, deixaram de lado os sorvetes e picolés. Faz questão de dizer que: Fui eu quem ensinou “Seu Fabico” – lá na Prainha a fazer salgados e as receitas de bolo de arroz e bolo de queijo. (…) eu ensinei ele e a esposa.

Ao longo dos tempos a cidade de Cuiabá, os espaços percorridos por D. Maria foram reutilizados para outras funções. Os armazéns foram substituídos pelos mercados e hipermercados. As pequenas lojas por Shopping Centers. As festas foram recolhidas para os interiores dos clubes e buffets. E da Cuiabá que tanto D. Maria tem saudades resta apenas uma “amostra” entre as ruas estreitas e fachadas coloniais no centro histórico da capital.

Passeando pela Cuiabá antiga, por meio de suas lembranças Dona Maria recorda as magníficas festas e bailes do Clube Esportivo Feminino. No Clube Feminino, frequentado por elas e eles, as terças, quintas, sábados e domingos, havia bailes com conjuntos musicais. As noites animadíssimas eram organizadas pela diretoria do clube, exclusivamente por mulheres.

Para Maria Adenir Peraro, Maria Barata, representa aquele quinhão de seres humanos em que o egoísmo não encontrou ambiente para desenvolver-se. Cedeu lugar para a paciência e a generosidade. E portadora dessas preciosas e raras qualidades, soube encontrar o equilíbrio quando se viu diante do impasse: – ou acompanhar o marido e com isso, abandonar sua profissão de odontóloga ou, levantar bandeira de mulher emancipada profissionalmente e deixar-se guiar rumo ao sucesso, com independência.

A opção de acompanhar o marido levou-a, consciente ou não, a transformar suas habilidades manuais desenvolvidas no exercício da profissão de odontologia. As mesmas mãos habilidosas e instrumentalizadas na Universidade de São Paulo que no ano de 1936, receberam um diploma, foram inteligentemente transformadas. Uma transformação que pode revelar num primeiro momento àqueles que observam a trajetória de Dona Maria Barata o impacto da perda da possibilidade da mulher guiar-se sem os mandos do marido, do chefe de família. Quantas e quantas Marias, ao longo dos tempos subjugaram-se aos mandos e vontades de seus maridos ou pais, um número infindo. No entanto, Dona Maria, ao fazer a referida opção, fez uma revolução, que poderíamos chamar de “revolução silenciosa”. Não deixou de atuar e participar nos espaços públicos, pois opinava, sugeria e destacava-se nas atividades urbanas, como a do pequeno comércio varejista juntamente com o marido.

Mas, e as MÃOS que clamavam? As mãos habilidosas, logo encontraram um lugar e acomodaram-se fazendo, produzindo, festas, cerimônias, propiciando, prazer, bem estar e porque não dizer, saúde às pessoas que a cercavam.

Dona Maria, um modelo de mulher do século XXI, a ser por nós, seguido. Que sua estrela continue brilhando para que possamos nela nos espelhar, nestes seus 98 anos de idade. Lúcida, comunicativa, saudável, bem humorada, bonita e cheia de vida. Junto ao Conselho Regional de Odontologia em Cuiabá verificou-se que não consta nos registros o nome da Drª Maria Barata Corrêa da Costa, uma vez que os arquivos antigos se perderam quando da divisão do Estado de Mato Grosso em 1979. Seria interessante o Conselho providenciar esse resgate de memória.

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