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Almanaque Cuyabá

Almanaque Cuyabá

O Almanaque Cuyabá é um verdadeiro armazém da memória cuiabana, capaz de promover uma viagem pela história em temas como música, artes, literatura, dramaturgia, fatos inusitados e curiosidades de Mato Grosso. Marcam presença as personalidades que moldaram a cara da cultura local.

Historicidade

Forte de Coimbra, guardião das fronteiras

by Almanaque Cuyabá 7 de março de 2026
written by Almanaque Cuyabá

Em meio às disputas territoriais que marcaram o século XVIII, o Presídio de Nova Coimbra foi erguido como um marco estratégico da presença portuguesa na América do Sul. Sob o comando do capitão Mathias Ribeiro da Costa, a construção teve início em 13 de setembro de 1775, não no local originalmente designado por Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres – o Fecho dos Morros –, mas cerca de quarenta léguas rio acima, no Estreito de São Francisco Xavier, à margem direita do Rio Paraguai.

A Fundação de Nova Coimbra

O presídio foi concebido com o propósito de proteger a fronteira luso-espanhola na região que hoje delimita o Brasil de Paraguai e Bolívia, reforçando a soberania portuguesa sobre o território em disputa. Sua localização no médio curso do Rio Paraguai foi escolhida estrategicamente, não apenas pela facilidade de acesso, mas também pelo potencial de incentivar o povoamento e a integração da região à Capitania de Mato Grosso.

A fortificação desempenhou um papel crucial até 1872, sendo palco de inúmeras ações defensivas durante os períodos de instabilidade e guerra, que marcaram os limites ocidentais do Império brasileiro.

Arquitetura e Estratégia

O Presídio de Nova Coimbra foi edificado com características militares adaptadas ao relevo do local. Construído sobre um barranco às margens do rio, sua planta irregular refletia a necessidade de adaptação ao terreno e às exigências defensivas da época.

O complexo inclui:

  • Capela: Um espaço dedicado à fé, que também simbolizava a presença cultural e religiosa portuguesa.
  • Casa de pólvora: Estrategicamente isolada, para evitar explosões em caso de ataque ou acidente.
  • Alojamentos e pátios internos: Elementos essenciais para abrigar os soldados e manter o funcionamento diário do presídio.
  • Muralhas e baluartes: Equipadas com canhões navais, proporcionando defesa contra invasões por terra e pelo rio.

Importância Estratégica e Declínio

O presídio consolidou a presença portuguesa na região, contribuindo para a segurança das fronteiras e para a expansão da ocupação ao longo do Pantanal. Sua localização foi vital para o controle das rotas fluviais e para a defesa contra avanços espanhóis, bem como para a manutenção do domínio português sobre o Rio Paraguai.

No entanto, com o passar do tempo e a redefinição das fronteiras políticas após o fim das disputas com a Espanha e os conflitos subsequentes, o papel militar de Nova Coimbra diminuiu. O local foi gradualmente desativado como fortificação estratégica.

A Preservação como Patrimônio Histórico

Em 1983, foi lançado o plano para transformar o local em um Parque Histórico-Turístico, resgatando a memória e o valor cultural do presídio. O projeto visa preservar e destacar o legado arquitetônico e histórico da fortificação, incluindo seus baluartes, canhões de marinha, capela e estruturas internas.

O Forte de Coimbra, como é conhecido atualmente, representa um testemunho do esforço português em proteger suas fronteiras e fomentar o desenvolvimento de uma região de importância geopolítica. A fortaleza permanece como símbolo de resistência e de adaptação às adversidades da época, além de integrar o rico patrimônio histórico-cultural do Brasil.

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CuiabanidadeDrops de nossos autoresLendas e Causos cuiabanos

Candimba – O filho que se deformou pela maldade

by Almanaque Cuyabá 7 de março de 2026
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Na Cuiabá dos anos 1930, entre ruas de terra batida e casas com janelas de madeira abertas para o calor, havia um rapaz conhecido por todos: Candimba. Era bonito, charmoso, e encantava as jovens com seu sorriso e sua fala envolvente. Mas, por trás da aparência e da popularidade, escondia-se um temperamento sombrio.

Candimba era notoriamente nervoso, principalmente com sua mãe — uma senhora já idosa, humilde e dedicada, que fazia de tudo pelo filho. Com o tempo, os cochichos aumentaram: diziam que ele a tratava mal, que gritava, empurrava… até que os maus-tratos tornaram-se mais cruéis. Pontapés, insultos, humilhações. A mãe, paciente e resignada, suportava em silêncio.

Foi então que, como num castigo vindo do próprio céu ou da terra, o corpo de Candimba começou a mudar. Primeiro, um leve encurvamento nas costas. Depois, suas pernas tornaram-se finas e fracas, mal sustentando o peso do corpo. A cada novo ato de crueldade, sua figura humana ia se desfazendo.

A corcunda crescia. A pele tornava-se pálida e ressequida, os olhos fundos e sombrios, como de alguém que já não via o mundo com clareza. Os cabelos, embolados e sujos, lembravam cabelos de milho seco, e as unhas, longas e negras, pareciam garras de uma criatura esquecida pelo tempo.

Dizia-se que ele já mal comia, e que o único prazer que ainda restava era estar ao lado da mãe, a mesma que tanto maltratara. Uma relação estranha, de culpa, dor e silêncio.

Com o tempo, o rapaz passou a viver quase recluso. Não falava com ninguém, não saía de casa — exceto quando seu único amigo, um homem de coração bondoso, o levava até a frente da casa para tomar um pouco de sol.

Quem passava e via Candimba naquele estado, franzia o cenho e fazia o sinal da cruz. “Aquilo não é mais gente”, diziam. “É o castigo de Deus, por levantar a mão contra quem lhe deu a vida.”

E assim, Candimba tornou-se mais que um homem deformado: tornou-se lenda. Uma lembrança viva, contada entre gerações da Baixada Cuiabana, de que nenhum sucesso no mundo justifica a falta de amor e respeito por uma mãe.

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Falar cuiabano

“Vôooote!”, descubra a origem desta expressão

by Almanaque Cuyabá 7 de março de 2026
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Entre as inúmeras expressões tradicionais que ainda vibram com intensidade na fala dos cuiabanos de “tchapa e cruz”, uma se destaca com brilho singular: o emblemático e carregado de significado “vôte!”. Esta exclamação, quase um brado da alma, emerge com espontaneidade para expressar repulsa, aversão ou até mesmo um espanto desmedido.

Em situações inesperadas ou desconcertantes, é comum ouvir algo como: “Vôôôte! Deus me livre desse sujeito com cara de capeta!” – uma frase que, com seu tom dramático, encapsula o humor, o susto e a vivacidade tão características da cultura cuiabana. Basta um momento de surpresa ou desagrado, e lá vem o costumeiro “vôôôôôôte!”, acompanhado daquele eco arrastado, quase teatral, que lhe confere ainda mais intensidade e personalidade.

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Ditos populares

Casa da Mãe Joana: a curiosa origem de uma expressão popular

by Almanaque Cuyabá 7 de março de 2026
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A expressão “casa da mãe joana” tem sua origem na história de Joana I, que no século XIV passou de rainha de Nápoles a fugitiva. Ela teria sido envolvida no assassinato de seu marido, vítima de uma conspiração na qual Joana teria participado diretamente. O cunhado dela, Luís I, rei da Hungria, furioso com a situação, invadiu Nápoles, forçando Joana a fugir para Avignon, na França.
Em Avignon, Joana assumiu o controle da cidade e decidiu regulamentar os bordéis, que passaram a ser chamados de “Paço da Mãe Joana”. No Brasil, a palavra “paço” foi alterada popularmente para “casa”, e uma das normas desse local dizia que “o lugar teria uma porta por onde todos possam entrar”, simbolizando a liberdade e a desordem. Assim, a expressão “casa da mãe joana” passou a ser associada a ambientes desorganizados, onde imperam a bagunça e a falta de regras, e também passou a ser um sinônimo de prostíbulo.

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Digoreste

O legado histórico de Ana Maria do Couto

by Almanaque Cuyabá 7 de março de 2026
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Ana Maria do Couto May foi uma mulher inesquecível, de presença marcante e beleza impressionante. Com 1,67 m de altura, pele morena, olhos castanhos e cabelos negros, ela tinha uma energia que silenciava qualquer conversa ao entrar em um ambiente. Seu sorriso genuíno, inteligência, espontaneidade e determinação a tornaram uma personalidade única. Quase 40 anos após sua morte prematura, sua memória permanece viva entre aqueles que a conheceram, sendo lembrada como uma das figuras que sacudiu Cuiabá.

Nascida em 13 de setembro de 1925, Ana Maria foi pioneira na educação física e no esporte, incentivando as jovens cuiabanas a praticar futebol na década de 40. Formada em 1944, ela se tornou professora no Colégio Estadual de Mato Grosso, onde era muito admirada pelos alunos. Além disso, foi vereadora de Cuiabá, sendo uma das primeiras mulheres a conquistar um espaço na política local.

Ana Maria se destacou também no futebol feminino, tornando-se a primeira mulher no Brasil a presidir um time de futebol, o Dom Bosco, e também organizando grandes festas em Cuiabá entre 1969 e 1971.

Independente e ousada, desafiou os padrões da época e levou uma vida plena, cercada de apoio familiar. Em 1969, organizou as celebrações dos 250 anos de Cuiabá, mas em 1970 foi diagnosticada com câncer e se afastou das atividades. Ela faleceu em 17 de outubro de 1971, aos 46 anos, deixando um legado imortalizado em diversas homenagens, incluindo o presídio feminino de Cuiabá e um conjunto habitacional em Campo Grande. Seu exemplo de coragem, liderança e dedicação segue inspirando todos que conhecem sua história.

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Publicado no Impresso

O primeiro escândalo amoroso de Cuiabá: paixão, poder e exílio

by Almanaque Cuyabá 14 de julho de 2025
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Em meio ao cenário bucólico e intrigante da Cuiabá colonial, em 1753, desenrolou-se um drama de paixão e poder que marcaria os primórdios da história da então Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá. Os protagonistas deste romance foram duas figuras ilustres da época: o influente ouvidor João Vaz Morilhas, homem culto e elegante, e o governador da recém-criada Capitania de Mato Grosso, dom Antônio Rolim de Moura Tavares. No centro deste triângulo explosivo, estava a misteriosa e encantadora Benta Cardoso, uma mulher cuja beleza e presença cativaram os dois homens mais poderosos da região.

A trama teve início nas noites silenciosas da pequena vila. Vaz Morilhas, profundamente apaixonado por Benta, a recebia secretamente em um casarão que hoje abriga os Correios, situado na então Rua Bela do Juiz, atual 13 de Junho. A jovem, detida no quartel vizinho, escapava sorrateiramente todas as noites, atravessando uma porta entreaberta que dava acesso direto ao apaixonado juiz. Sob as estrelas, longe das vistas curiosas, os dois viviam seu romance proibido, desafiando convenções e o próprio destino.

No entanto, o idílio foi interrompido pela chegada de dom Antônio Rolim de Moura Tavares, o primeiro governador da capitania, enviado por El-Rei de Portugal para impor a ordem e consolidar o domínio português na região. Dono de um temperamento enérgico e ambicioso, Rolim de Moura rapidamente se estabeleceu como a autoridade suprema da vila, ofuscando o poder até então exercido pelo ouvidor. Não tardou para que os olhos do governador recaíssem sobre Benta Cardoso, e ele, tão enfeitiçado quanto o juiz, decidiu disputar o coração da jovem.

O que se seguiu foi uma verdadeira batalha de egos e influências. Rolim de Moura, valendo-se de sua autoridade como representante direto da coroa, começou a perseguir e ameaçar Vaz Morilhas. A rivalidade entre os dois escalou até um ponto insustentável, e o governador, determinado a eliminar seu concorrente, ordenou a prisão do juiz. Sob escolta armada, João Vaz Morilhas foi forçado ao exílio, sendo enviado para Belém, no Pará, deixando para trás não apenas a mulher que amava, mas também sua posição e prestígio na Vila Real de Cuiabá.

Com o afastamento de Vaz Morilhas, o romance chegou ao fim, mas suas repercussões ecoaram por décadas. O nome da Rua Bela do Juiz, como passou a ser conhecida pela população, eternizou o episódio nas memórias cuiabanas, transformando o local em um marco da paixão e da intriga política.

Benta Cardoso, por sua vez, permaneceu envolta em mistério, um enigma de seu destino que apenas aumentou seu fascínio na imaginação popular. Já dom Antônio Rolim de Moura Tavares continuou a governar a capitania, consolidando sua influência e deixando um legado administrativo que, paradoxalmente, carregava as marcas de um amor que nunca chegou a ser consumado plenamente.

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Publicado no Impresso

O bonde que descarrilou a política: o insólito episódio em Cuiabá

by Almanaque Cuyabá 14 de julho de 2025
written by Almanaque Cuyabá

O Almanaque Brasil, por meio do jornalista Bruno Hofman, rememora a chegada dos bondes ao país, destacando episódios marcantes em São Paulo. Na capital paulista, os trilhos foram inaugurados em 1872, com bondes puxados por burros entre a Rua do Carmo e a estação da Luz. Já em Cuiabá, a estreia do transporte sobre trilhos ocorreu em 1891, com veículos igualmente tracionados por burricos e operados pela Companhia Progresso Cuiabano, mais tarde adquirida por Benedito Figueiredo Leite, o popular “Didito da Balsa”.

Mas o bonde cuiabano não levou apenas passageiros: carregou consigo um episódio político inusitado. Em 1898, o chefe de Polícia, major Frederico Adolfo Joseti, proibiu a circulação dos bondes alegando questões de segurança. A ordem, no entanto, foi desafiada pelo influente senador Generoso Ponce, líder do Partido Situacionista, que determinou que o bonde seguisse viagem — uma afronta que resultou em embate direto com o presidente do Estado, Antônio Corrêa da Costa. Sem respaldo e temendo as consequências de prender um senador, Joseti renunciou. Corrêa da Costa, pressionado pela crise, também deixou o cargo e retirou-se para Porto Murtinho. Um bonde, assim, foi capaz de descarrilar uma presidência.

Curiosamente, a própria palavra “bonde” é um termo tipicamente brasileiro, com diversas teorias sobre sua origem. Mais do que um meio de transporte, ele legou expressões que resistem no nosso vocabulário até hoje, como:

  • Andar na linha – agir com correção e integridade;
  • Pegar o bonde andando – entrar em algo já em andamento;
  • Perder o bonde da história – deixar escapar uma oportunidade;
  • Comprar um bonde – cair em um golpe ou ser enganado;
  • Tocar o bonde – seguir adiante com uma decisão ou plano;
  • Tomar o bonde errado – quando tudo dá errado;
  • Trombada – colisão ou choque inesperado, expressão que teria surgido após um elefante, fugido de um circo nos anos 1920, derrubar um bonde com a tromba.

Há ainda os termos técnicos e curiosidades da época:
Condutor era sinônimo de cobrador; motorneiro, o motorista do bonde; e o almofadinha, que hoje remete a alguém excessivamente vaidoso, era o passageiro que levava sua própria almofadinha de madeira para suavizar o sacolejo dos trilhos.

A história dos bondes, portanto, não se resume ao transporte urbano: ela percorre os trilhos da política, do cotidiano e da linguagem popular brasileira. E em Cuiabá, como se viu, um bonde foi capaz de fazer estremecer os alicerces do poder.

 

14 de julho de 2025 0 comments
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TESTE ANCORA

A força do Siriri e Cururu, do barro e das raízes cuiabanas

by Almanaque Cuyabá 1 de julho de 2025
written by Almanaque Cuyabá

Almanaque — Dona Domingas, pra começarmos, conte pra gente de onde a senhora vem e como tudo começou.

Dona Domingas — Eu sou nascida e criada aqui mesmo, em São Gonçalo Beira Rio, em Cuiabá, lá pros lado do rio. Nasci em 1954. Desde minina, com uns oito anos, eu já tava no meio das festança, vendo o povo dançá Siriri, batê palma, rodá a saia. Aquilo me encantô. A gente aprendia era vendo, não tinha negócio de escolinha, não. O corpo é quem aprendia primeiro.

Almanaque — E além de dançar, a senhora também rompeu um certo tabu nas festas, não foi?

Dona Domingas — Foi mesmo, fio. Naquele tempo, tamborim era só pros homi. Mulher nem podia chegá perto, senão diziam que dava azar. Mas eu fui lá e peguei. Fui a primeira mulher a tocá tamborim nessas festas do povo. O povo arregalô o zóio, mas depois acostumô. O que eu queria mesmo era mostrâ que nós, mulher, também pode. E pode é muito!

Almanaque — E dessa paixão nasceu o grupo Flor Ribeirinha?

Dona Domingas — Foi. Criei com o coração, viu? O Flor Ribeirinha é pra mostrá nossas danças, nossas rezas, nosso jeito de sê. O siriri, o rasqueado, o boi-à-serra… isso tudo é coisa nossa, de raiz. Nós não dança só por dançá, não. Nós conta história no passinho, no canto, na batida da viola de cocho. Quando a saia roda, parece que o mundo até muda de cor.

Almanaque — E com as mãos, a senhora também conta histórias, né?

Dona Domingas — Ah, mexê com barro é coisa que tá no sangue. Aprendi com minha mãe, que era índia coxiponé, uma mulher sabida demais. Ela me ensinô a tirá o barro da beira do rio, a deixá no ponto, a moldá com jeito. Hoje eu passo isso pra frente. Lá nos CAPS, eu ensino o povo a mexê no barro, e eles vão se acalmando, conversando, se curando. É uma terapia, uma bênção.

Almanaque — A senhora sempre esteve muito envolvida com a comunidade.

Dona Domingas — Sempre tive no meio, fio. Já fui da associação de moradores, da associação das mãe, da ceramista… A gente tem que se juntá, porque sozinho ninguém vai longe. Em comunidade a gente se ajuda, divide a farinha, reparte o peixe e segura a barra.

Almanaque — E esse trabalho todo foi reconhecido. A senhora já recebeu prêmios importantes.

Dona Domingas — Ganhei sim. Em 2018, levei o prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura. Fiquei toda boba, sô! Segunda maior nota do Centro-Oeste. Em 2019, a UFMT me deu o título de Doutora Honoris Causa. Eu falei: “Credo, gente, eu nem terminei os estudo!” E eles: “Mas a senhora tem o saber do povo.” Aí eu chorei, né? Porque é bom demais sê reconhecida pelo que a gente faz com amor.

Almanaque — E em 2023, o grupo Flor Ribeirinha brilhou no mundo!

Dona Domingas — Vixe Maria! Foi um sonho! A gente foi pra Coreia do Sul, representando o Brasil no Cheonan World Dance Festival. Chegando lá, os coreano ficava tudo besta com as roupa, com a dança, com o batuque. E nós ganhemos! Trouxemos o prêmio pra casa. O povo de São Gonçalo chorô, festejou, batêu palma. Era nossa cultura sendo aplaudida do outro lado do mundo. Ô trem bão!

Almanaque — Dona Domingas, pra fechar, o que a senhora diria pra quem quer seguir o caminho da cultura popular?

Dona Domingas — Eu digo assim, ó: não tenha vergonha das sua raiz. Dance com gosto, com respeito. Escute os mais velho, porque eles são livro vivo. E num se esquece: cultura não é coisa véia, é coisa viva. É igual barro: se não mexê, seca; mas se cuidá, vira arte.

 

1 de julho de 2025 0 comments
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